quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

De mais Tropeiros.




Por aqui passava um homem
-e como o povo se ria!-
que reformava este mundo
de cima da montaria.

Tinha um machinho rosilho.
Tinha um machinho castanho.
Dizia: "Não se conhece
país tamanho!"

"Do caeté a Vila Rica,
tudo ouro e cobre!
O que é nosso vão levando...
E o povo aqui sempre pobre!"

Por aqui passava um homem
-e como o povo se ria!-
que não passava de Alferes
de cavalaria!

"Quando eu voltar -afirmava- 
outro haverá que comande.
Tudo isto vai levar volta,
e eu serei grande!"

"Faremos a mesma coisa
que fez a América Inglesa!"
E bradava: "Há de ser nossa
tanta riqueza!"

Por aqui passava um homem
-e como o povo se ria!-
"Liberdade ainda que tarde"
nos prometia.

E cavalgava o machinho.
E a marcha era tão segura
que uns diziam: "Que coragem!"
E outros: "Que loucura!"

Lá se foi por estes montes,
o homem de olhos espantados,
a derramar esperanças
por todos os lados.

Por aqui passava um homem
-e como o povo se ria!-
Ele, na frente, falava,
e, atrás, a sorte corria...

Dizem que agora foi preso,
não se sabe onde.
(Por umas cartas entregues
ao Vice-Rei e ao Visconde.)

Pois parecia loucura,
mas era mesmo verdade.
Quem pode ser verdadeiro,
sem que desagrade?

Por aqui passava um homem...
-e como o povo se ria!-
No entanto, à sua passagem,
tudo era como alegria.

Mas ninguém mais está rindo,
pois talvez ainda aconteça
que ele por aqui não volte,
ou que volte sem cabeça...

(Pobre daquele que sonha
fazer bem -grande ousadia-
quando não passa de Alferes
de cavalaria!)

Por aqui passava um homem...
-e o povo todo se ria.


Cecília Meireles.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

ROTINA






A idéia é a rotina do papel
O céu é a rotina do edifício
O início é a rotina do final
A escolha é a rotina do gosto
A rotina do espelho, é o oposto.

A rotina do jornal é o fato
A celebridade é a rotina do boato
A rotina da mão é o toque
A rotina da garganta, é o rock.

O coração é a rotina da batida
A rotina do equilíbrio é a medida
O vento é a rotina do assobio
A rotina da pele, é o arrepio.

A rotina do perfume é a lembrança
O pé é a rotina da dança
Julieta é a rotina do queijo
A rotina da boca, é o desejo.

A rotina do caminho é a direção
A rotina do destino é a certeza

Toda rotina, tem a sua beleza
Descubra a sua.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Nonno




Quando eu era pequena, costumava chamar meu avô de “Dito pussive”.
 Seu nome era Benedito, e quando ele fazia (ou deixava de fazer) algo que incomodava minha avó, ela sempre falava: “Mas será possível Dito!”  E em minha interpretação mal concebida, este era o nome dele!

Lembro-me que após o almoço, depois dele alimentar as criações do sítio, ele se deitava no sofá e cochilava. Um breve descanso para recompor as energias e ir cuidar das plantações.

Num certo dia, enquanto meu avô repousava no sofá, encontrei um batom vermelho ali por perto e resolvi deixar meu querido vovô ‘arrumado’.

Sim, pintei seu rosto por completo! Felizmente ele tinha um sono pesado, nem percebeu.
Quem percebeu foi minha avó!

Quando o vô acordou, foi tranquilamente até a cozinha de lenha para tomar um café e voltar ao trabalho. Nisso, minha vó levou um susto tremendo!
-“Mas será possível Dito! O que houve com você?!”

Eis que passa uma pequena correndo pela cozinha com um batom na mão e diz:
-“Viu como o Vô ficou bonito Vó?”

Ambos riram e me abraçaram.

O vô foi se lavar me chamando de ‘levada dos trinta’.
Depois me chamou para ajuda-lo no trabalho. E eu, fui.

São tantas as histórias que tenho para contar...
Por isso resolvi escrever algumas. As melhores...  ou as que eu me lembrar!
Para que se um dia minha memória vier a falar... eu ter um registro para aos meus filhos/netos poder contar.